Exercendo o direito literário, de me fazer fazendo (ainda que pouco), portanto, quaisquer opiniões, críticas, sugestões e quiçá elogios serão bem vindos, mas não quer dizer que mudarei algo.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Amigo imaginário

Complacente. Tipo lúcido de loucura. Obstinado. Aproximou cano e céu da boca.
Imaginou o velório. Foi longe demais, não podia imaginar o velório. É melhor pensar no bilhete.
- Onde está escrito que um suicida não pode imaginar o próprio velório?
- Vai discutir regras agora? Se penso muito não me mato e se me mato foi de muito pensar e não achar solução, por isso, não adianta agora me botar a pensar.
Olhou para a porta, imaginou a mão a tocar a maçaneta, a fazê-la abrir e fechar - As dobradiças - decidiu abrir a porta.
- Não deves ter pudor de uma casa vazia...
Levantou, largou a arma no assento com todo o cuidado, não podia ser acidental. Foi até a porta de madeira-cor-de-café e abriu.
- Abriu como se fosse a última vez que abrisse uma porta.
- Vai se pôr agora a me dizer asneiras. Claro que é a última vez, a não ser que...
- Não me venha com essas, já estava decidido, calculado.
Voltou à cadeira, pegou a arma e se sentou. Engatilhou e pensou como seria não pensar mais. "O meu problema é muito pensar, assim resolverei". Estava decidido, atirou. Descreveu-se a cena pelo som: o estouro do tiro, aquele que afugenta os pássaros, se eles lá estivessem, no quintal, fazendo-os voar em um canto estridente de alerta. A arma caiu, os tecidos romperam-se. Não pensou mais.

Preciso de alguém para me mandar à merda!


Ela é doce. Continua a mesma: quieta, doce e amável. Daquele tipo que se preocupa com o que vai parecer, mas sem dar a mínima para o que os outros vão pensar. Meu clichê preferido era o corte de cabelo.
Clichês: mãos dadas, olhares demorados, abraços apertados, implicâncias. Era tudo tão bonito que chegava a ser nojento. Era nojento. Não que ainda signifique alguma coisa. Também não sei como ela conseguiu, posto que com tantas obviedades se tornou a mais urgente das coisas que eu quero esquecer.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Do Simples Ato de Interromper

Às vezes lia alguma coisa por algum tempo, mas em via de regra só olhava. Escolhia, abria em algumas páginas e percorria com os olhos tangenciando as palavras, sem ler ao menos uma. Percorria, agachava-se, subia, descia, voltava e acabava por ir embora sem levar e nem falar nada.
Parecia incomodada com qualquer aproximação, mesmo dos desinteressados que entravam com um destino prévio e corriam a alguma estante.
Tinha o cabelo preto, o rosto arredondado e os olhos penetrantes e decididos. Era fato, e dos mais inegáveis, que era bonita, mas nada que fizesse calar o encanto de qualquer outra moça bonita que entrava depois dela...
Em mais um daqueles fins de tarde em que ia à loja, comprou um livro. Fez seu ritual: agachou, olhou, escolheu, abriu (não necessariamente nessa ordem); só que dessa vez levou o livro, pagou - claro.
No dia seguinte entrou na loja lendo o livro que havia comprado e, de passagem pelo caixa, cumprimentou sem levantar os olhos. Gosta daquele grau de intimidade impessoal, mas incomodava-lhe o ar natural com que todos a cumprimentava. Jogavam aquele “oi” ao espaço de coexistência e, como quem despreza ouvir alguma resposta.
 Um dia, o vendedor interrompeu sua visita:
- Procura algo em especial?
- Tranqüilidade! – respondeu ela com os olhos na estante.
- Acho que está na sessão errada, então. Deveria procurar tranqüilidade longe desses romances. Quem sabe alguma poesia seja mais tranqüila? - disse ele com ar de quem finalizava a palestra.
Ela, como se estivesse desmanchando uma barreira, sorriu. Sorriu sem mover a cabeça, apenas levantando os olhos da estante para ele.
- Tu anda lendo que tipo de poesia para dizer uma coisa dessas? – perguntou ela.
- Foi o que me ocorreu. Não quis te recomendar auto-ajuda para não parecer indireta. Mas lá sim, só freqüentam pessoas tranqüilas, ou pelo menos seguras. – respondeu ele analisando o que acabara de dizer.
- Que bom que não disseste isso. Ia encarar como uma indireta.
- Eu sei. Por isso não disse.
- Que bom – disse ela já se afastando.
A conversa não seguiu. Os dois entenderam que era melhor parar por ali, antes que começassem a dialogar como os dois desconhecidos que eram.
Demorou mais do que o normal e no fim da tarde, ao ir embora, despediu-se olhando o vendedor, como se não fosse rotina.
- que abudo, não volto mais aqui - pensou.