Exercendo o direito literário, de me fazer fazendo (ainda que pouco), portanto, quaisquer opiniões, críticas, sugestões e quiçá elogios serão bem vindos, mas não quer dizer que mudarei algo.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Do Simples Ato de Interromper

Às vezes lia alguma coisa por algum tempo, mas em via de regra só olhava. Escolhia, abria em algumas páginas e percorria com os olhos tangenciando as palavras, sem ler ao menos uma. Percorria, agachava-se, subia, descia, voltava e acabava por ir embora sem levar e nem falar nada.
Parecia incomodada com qualquer aproximação, mesmo dos desinteressados que entravam com um destino prévio e corriam a alguma estante.
Tinha o cabelo preto, o rosto arredondado e os olhos penetrantes e decididos. Era fato, e dos mais inegáveis, que era bonita, mas nada que fizesse calar o encanto de qualquer outra moça bonita que entrava depois dela...
Em mais um daqueles fins de tarde em que ia à loja, comprou um livro. Fez seu ritual: agachou, olhou, escolheu, abriu (não necessariamente nessa ordem); só que dessa vez levou o livro, pagou - claro.
No dia seguinte entrou na loja lendo o livro que havia comprado e, de passagem pelo caixa, cumprimentou sem levantar os olhos. Gosta daquele grau de intimidade impessoal, mas incomodava-lhe o ar natural com que todos a cumprimentava. Jogavam aquele “oi” ao espaço de coexistência e, como quem despreza ouvir alguma resposta.
 Um dia, o vendedor interrompeu sua visita:
- Procura algo em especial?
- Tranqüilidade! – respondeu ela com os olhos na estante.
- Acho que está na sessão errada, então. Deveria procurar tranqüilidade longe desses romances. Quem sabe alguma poesia seja mais tranqüila? - disse ele com ar de quem finalizava a palestra.
Ela, como se estivesse desmanchando uma barreira, sorriu. Sorriu sem mover a cabeça, apenas levantando os olhos da estante para ele.
- Tu anda lendo que tipo de poesia para dizer uma coisa dessas? – perguntou ela.
- Foi o que me ocorreu. Não quis te recomendar auto-ajuda para não parecer indireta. Mas lá sim, só freqüentam pessoas tranqüilas, ou pelo menos seguras. – respondeu ele analisando o que acabara de dizer.
- Que bom que não disseste isso. Ia encarar como uma indireta.
- Eu sei. Por isso não disse.
- Que bom – disse ela já se afastando.
A conversa não seguiu. Os dois entenderam que era melhor parar por ali, antes que começassem a dialogar como os dois desconhecidos que eram.
Demorou mais do que o normal e no fim da tarde, ao ir embora, despediu-se olhando o vendedor, como se não fosse rotina.
- que abudo, não volto mais aqui - pensou.

Um comentário:

  1. tranquilidade na literatura? acho meio difícl. Normalmente romances tem lá seus clímax e poesia dá uns calafrios na gente.

    lindo, lindo texto

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