Às vezes lia alguma coisa por algum tempo, mas em via de regra só olhava. Escolhia, abria em algumas páginas e percorria com os olhos tangenciando as palavras, sem ler ao menos uma. Percorria, agachava-se, subia, descia, voltava e acabava por ir embora sem levar e nem falar nada.
Parecia incomodada com qualquer aproximação, mesmo dos desinteressados que entravam com um destino prévio e corriam a alguma estante.
Tinha o cabelo preto, o rosto arredondado e os olhos penetrantes e decididos. Era fato, e dos mais inegáveis, que era bonita, mas nada que fizesse calar o encanto de qualquer outra moça bonita que entrava depois dela...
Em mais um daqueles fins de tarde em que ia à loja, comprou um livro. Fez seu ritual: agachou, olhou, escolheu, abriu (não necessariamente nessa ordem); só que dessa vez levou o livro, pagou - claro.
No dia seguinte entrou na loja lendo o livro que havia comprado e, de passagem pelo caixa, cumprimentou sem levantar os olhos. Gosta daquele grau de intimidade impessoal, mas incomodava-lhe o ar natural com que todos a cumprimentava. Jogavam aquele “oi” ao espaço de coexistência e, como quem despreza ouvir alguma resposta.
Um dia, o vendedor interrompeu sua visita:
- Procura algo em especial?
- Tranqüilidade! – respondeu ela com os olhos na estante.
- Acho que está na sessão errada, então. Deveria procurar tranqüilidade longe desses romances. Quem sabe alguma poesia seja mais tranqüila? - disse ele com ar de quem finalizava a palestra.
Ela, como se estivesse desmanchando uma barreira, sorriu. Sorriu sem mover a cabeça, apenas levantando os olhos da estante para ele.
- Tu anda lendo que tipo de poesia para dizer uma coisa dessas? – perguntou ela.
- Foi o que me ocorreu. Não quis te recomendar auto-ajuda para não parecer indireta. Mas lá sim, só freqüentam pessoas tranqüilas, ou pelo menos seguras. – respondeu ele analisando o que acabara de dizer.
- Que bom que não disseste isso. Ia encarar como uma indireta.
- Eu sei. Por isso não disse.
- Que bom – disse ela já se afastando.
A conversa não seguiu. Os dois entenderam que era melhor parar por ali, antes que começassem a dialogar como os dois desconhecidos que eram.
Demorou mais do que o normal e no fim da tarde, ao ir embora, despediu-se olhando o vendedor, como se não fosse rotina.
- que abudo, não volto mais aqui - pensou.
Parecia incomodada com qualquer aproximação, mesmo dos desinteressados que entravam com um destino prévio e corriam a alguma estante.
Tinha o cabelo preto, o rosto arredondado e os olhos penetrantes e decididos. Era fato, e dos mais inegáveis, que era bonita, mas nada que fizesse calar o encanto de qualquer outra moça bonita que entrava depois dela...
Em mais um daqueles fins de tarde em que ia à loja, comprou um livro. Fez seu ritual: agachou, olhou, escolheu, abriu (não necessariamente nessa ordem); só que dessa vez levou o livro, pagou - claro.
No dia seguinte entrou na loja lendo o livro que havia comprado e, de passagem pelo caixa, cumprimentou sem levantar os olhos. Gosta daquele grau de intimidade impessoal, mas incomodava-lhe o ar natural com que todos a cumprimentava. Jogavam aquele “oi” ao espaço de coexistência e, como quem despreza ouvir alguma resposta.
Um dia, o vendedor interrompeu sua visita:
- Procura algo em especial?
- Tranqüilidade! – respondeu ela com os olhos na estante.
- Acho que está na sessão errada, então. Deveria procurar tranqüilidade longe desses romances. Quem sabe alguma poesia seja mais tranqüila? - disse ele com ar de quem finalizava a palestra.
Ela, como se estivesse desmanchando uma barreira, sorriu. Sorriu sem mover a cabeça, apenas levantando os olhos da estante para ele.
- Tu anda lendo que tipo de poesia para dizer uma coisa dessas? – perguntou ela.
- Foi o que me ocorreu. Não quis te recomendar auto-ajuda para não parecer indireta. Mas lá sim, só freqüentam pessoas tranqüilas, ou pelo menos seguras. – respondeu ele analisando o que acabara de dizer.
- Que bom que não disseste isso. Ia encarar como uma indireta.
- Eu sei. Por isso não disse.
- Que bom – disse ela já se afastando.
A conversa não seguiu. Os dois entenderam que era melhor parar por ali, antes que começassem a dialogar como os dois desconhecidos que eram.
Demorou mais do que o normal e no fim da tarde, ao ir embora, despediu-se olhando o vendedor, como se não fosse rotina.
- que abudo, não volto mais aqui - pensou.
tranquilidade na literatura? acho meio difícl. Normalmente romances tem lá seus clímax e poesia dá uns calafrios na gente.
ResponderExcluirlindo, lindo texto