Exercendo o direito literário, de me fazer fazendo (ainda que pouco), portanto, quaisquer opiniões, críticas, sugestões e quiçá elogios serão bem vindos, mas não quer dizer que mudarei algo.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

et...

Ela era muito bonita, com suas curvas, e ele não parava de olha-la. Quando todos andavam de um lado para outro na rua, como se nada mais fosse tão importante, a outra ficava ali parada com sua cara de ''não acredito'' fitando-a. Assim se passou quase um século, e nada. Os deuses e/ou o destino não haviam presenteado aquele casal com a maior sorte da carne.
Carne, aliás, não poderia ser o problema, já que ambos eram de pedra como qualquer estátua que se preze. O problema então seria a falta dela? A falta de mortalidade? Para eles não! Podiam viver tranqüilamente com a idéia de perdurar eternamente. O que realmente embaraçava era o fado de terem sido colocados de maneira a não se tocarem: um de cada lado da praça.
Talvez nem precisavam se tocar, de repente uma maior proximidade, metade da metade da metade da metade, já seria o suficiente. Mas essa distância, essa que por encomenda esquadrilhou as ambições artísticas de um antigo, urbanista ou escultor, essa era como morrer a cada segundo um pouco, tornando insuportável o viver eterno. A toda distância em seus nomes: ambição, metros, anos, saudade, sonhos etc; mas a esse tipo de distância  se chamava proximidade, e há tempo ela vinha assinando seu tratado de crueldade contra os moldados amantes, estatuídos a apenas se olhar.
De todas as distâncias essa parecia a mais dolorosa. Não permitia tocar o objetivo enquanto mantinha próximo, tornando impossível o expediente do esquecimento e transformando-o em aflição. E desse mal sofriam as duas estátuas. Pessoas petrificadas, ou só pedras feitas como gente. Alvos constantes de reformas e apreciação por parte dos mortais que invejavam sua eternidade sem saber o quanto trazia angústia a cada nova restauração que vinha levando embora as esperanças de um fim datado pelos efeitos do tempo.

Dentre a mais cruel das distâncias, pode estar a proximidade.

3 comentários:

  1. É.
    Ela.
    Uma espera eterna, diante desse grande baile, a vida.
    Enquanto todos iam e vinham, dançando ao redor da fonte, devia pensar:
    ¿Por qué me miras, si no me sacas a bailar?


    >>>uma perspectiva diferente =)

    ResponderExcluir
  2. O tempo.
    Senhor de tudo.
    A uns intercede, a outros... nem tanto.
    Bem, nesse caso em particular, não saberia dizer.
    Apenas narrarei o que se sucedeu.
    Aquelas duas estátuas da fonte não resistiram ao efeitos (devastadores talvez) do tempo. Não há maneira de restaurar o que se deteriora.
    Pois bem, aquela espera vinda da proximidade constante estava chegando ao fim.
    Pó, foi o destino de ambas. Pó esse que se juntou. Finalmente eram um só, estavam ali, juntos, um em contato com o outro.
    Só lamento que isso tenha acontecido após a destruição de ambas. Estão agora eternamente unidas. Apenas não sabem disso. Nunca saberão.


    >>>HÁ! e viva os finais (um pouco mais) felizes) o/

    ResponderExcluir